05 · As quatro vias
Como os compradores estrangeiros de fato financiam a compra.
Tirando a teoria de lado, as compras que fechamos se viabilizam de uma destas quatro maneiras. Cada uma tem um custo real e uma pegadinha real; aqui estão elas, na ordem de frequência com que as vemos.
Via um — à vista, com o câmbio feito corretamente
A via dominante, e não a preguiçosa — bem executada, é uma decisão de financiamento por si só. O dinheiro entra por transferência bancária formal num contrato de câmbio registrado vinculado ao seu CPF, que é o que permite repatriar o produto da venda de forma limpa anos depois. Os custos são o IOF de 0,38% sobre o câmbio de entrada mais o spread cambial, que é negociável: insistindo, você consegue manter o atrito total abaixo de um por cento, e sobre um milhão de dólares essa negociação vale alguns milhares. A pegadinha é o timing — o real oscila com força frente ao dólar e ao euro, e uma variação entre a sua oferta e o fechamento pode lhe custar ou poupar mais do que um ano de juros de qualquer financiamento. Muitas vezes escalonamos o dinheiro em tranches assim que o contrato de promessa é assinado, em vez de apostar a soma inteira na cotação de um único dia.
Via dois — financiamento da construtora em imóveis novos
Num lançamento — um empreendimento novo vendido na planta —, a própria construtora concede o crédito, e essa é a única porta de financiamento no Brasil que se abre com a mesma facilidade para um não residente com CPF quanto para um brasileiro, porque a incorporadora está garantindo o próprio ativo e não faz nada parecido com a análise de crédito de um banco. O formato padrão: uma entrada, parcelas mensais durante a obra corrigidas pelo índice de custo da construção (INCC) e um saldo grande na entrega das chaves, que os brasileiros pagam à vista ou refinanciam num empréstimo bancário (o repasse). As armadilhas também são padrão: a correção durante a obra é um custo real que os compradores costumam subestimar, o saldo final é problema seu — um não residente não pode contar com o repasse que um brasileiro usaria — e você assume o risco de entrega da construtora, então o histórico da incorporadora faz parte da sua análise. Negociar diretamente com a incorporadora o saldo final é possível, especialmente perto do fim do ciclo de vendas de um empreendimento; essa é uma conversa que temos em nome dos nossos clientes.
Via três — tomar empréstimo no seu país e comprar à vista aqui
A discreta favorita dos nossos compradores norte-americanos e europeus: refinanciar ou tomar crédito sobre um imóvel no seu país — ou contra uma carteira de investimentos — às taxas do mercado de origem, transferir os recursos e fechar no Rio como comprador à vista. Você fica com o dinheiro mais barato, o vendedor ganha o fechamento limpo e rápido que o pagamento à vista garante neste mercado (e esse desconto é real — ofertas à vista vencem negociações por aqui), e nenhum banco brasileiro precisa entender o seu holerite. A pegadinha é que você transferiu o risco em vez de eliminá-lo: a dívida fica sobre o seu imóvel, na sua moeda, enquanto o ativo rende em reais — e um apartamento que aluga em reais para pagar um empréstimo em dólares fica exposto se o real enfraquecer. Compradores que pretendem custear as parcelas com a renda de aluguel no Rio devem dimensionar esse descasamento com honestidade.
Via quatro — private banking
Acima de cerca de R$3 milhões em ativos investíveis, a conversa muda — o mesmo patamar que descrevemos no guia bancário. Itaú Private, BTG, Safra e XP emprestam aos clientes que desejam contra uma carteira mantida com eles, em estruturas que uma agência de varejo não oferece: crédito contra seus investimentos em vez de contra o apartamento, condições sob medida, às vezes em múltiplas moedas. Para o comprador que se qualifica, é a via mais flexível desta lista, e a precificação reflete o relacionamento mais do que qualquer tabela de taxas. A pegadinha é a óbvia — só existe para clientes que trazem ativos relevantes ao banco, e o empréstimo é um anzol pensado para fazer de você exatamente esse cliente. Se você já está nessa faixa, tenha a conversa antes de transferir o dinheiro; talvez não precise vender nada para comprar o apartamento.